Derrota na Copa de 50 ensinou ao Brasil o caminho das vitórias

Uma das poucas vozes que cortaram o silêncio avassalador do Maracanã, no dia 16 de julho de 1950, buscava, na cabine, explicações para a derrota do Brasil para o Uruguai, minutos antes, pela final da Copa do Mundo de 1950. Passados 70 anos, e já sem a presença daquele que falou, o narrador Pedro Luiz, suas palavras previam o significado do revés.

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“Perdemos hoje, para conseguirmos vencer amanhã”, dizia Pedro Luiz, nos microfones da Panamericana.

Naquele momento, o locutor falava também sobre o próprio país, que, depois de abolir a escravidão, passar por um período de industrialização, integração social com o surgimento dos operários e do comércio, entrava na década de 50 em busca de uma identidade.

O país das marchinhas, do samba de Noel, se ressentia de uma tristeza enraizada, cujo colorido do Carnaval e a era do rádio ainda não conseguiam superar. E aquela final de 1950 foi o resumo de tudo isso, uma espécie de capítulo final que encontrou no futebol o algoz e o redentor daquele sofrimento.

O enredo do jogo já é conhecido. A fase final, que definiria o campeão, foi uma disputa em grupo. O Brasil goleou a Espanha (6 x 1) e a Suécia (7 x 1) e chegou para a partida contra o Uruguai com quatro pontos, precisando apenas de um empate para garantir o título. O Uruguai havia empatado com a Espanha (2 a 2) e vencido com dificuldade a Suécia (3 a 2).

Comandada pelo estrategista Flávio Costa, a seleção brasileira saiu na frente, com gol de cabeça de Friaça, aos 2 do segundo tempo, para delírio dos 200 mil presentes no Maracanã. Mas Schiaffino, aos 21, empatou. E aos 34 da etapa final Gigghia vem pela direita e chuta entre o goleiro Barbosa e a trave, de forma indefensável. O Brasil não conseguiu o empate.

Em 2000, 50 anos após da derrota, conversei com um dos protagonistas daquele jogo, o centro-médio Bauer. Era uma entrevista para O Estado de S. Paulo. Com a vitalidade ainda se contrapondo aos gestos mais lentos e ao andar um pouco truncado, ele me recebeu no Morumbi, como funcionário do São Paulo.

Sentamos em uma salinha e ele foi recordando aquele jogo que, para todos os que dele participaram, se tornou uma marca. Seu olhar mantinha a tristeza pela derrota, como um lago profundo que adormeceu no silêncio sem nunca mais ter suas águas movimentadas.

Bauer me contou lances que até então eu não sabia. Afirmou que o goleiro Máspoli foi determinante para a vitória uruguaia. A seleção brasileira tinha mesmo um timaço.

“Tínhamos um time de craques, que goleava seleções do nível da Espanha e da Suécia”, disse. E continuou.

“Jogamos o tempo inteiro em cima do Uruguai e fomos surpreendidos”.

Ele destacou que o time jamais deixou de buscar o ataque. E, com seu estilo clássico, até ele arriscou.

“Eu mesmo chutei de longe e já ia sair para comemorar o gol quando ele espalmou a bola para escanteio”, lembrou.

Bauer também revelou que já havia comprado a passagem de trem, de volta para São Paulo, para depois da partida. Mesmo se o Brasil ganhasse.

“Já havia comprado a passagem de volta para São Paulo, o que prova que não planejávamos festa de título. Naquele tempo era diferente, nós pagávamos a nossa conta”, disse.

Mas no dia do jogo, foi convencido por um repórter da revista O Cruzeiro a se desfazer da passagem e, depois do jogo, ficar um tempo a mais no Rio.
A empolgação na concentração da seleção brasileira, em São Januário, era grande.

Novos tempos

Com a derrota, além do silêncio, veio a sensação do abandono.

E agora José? Diria Carlos Drummond. O jogo acabou. O mundo se calou. Pelo menos para Bauer, cujo nome era José Carlos Bauer. Teve de voltar deitado na cabine, ocupada pelo jornalista Geraldo José de Almeida e outra pessoa.

“Quando perdemos, não vi nenhum repórter me procurar, estou esperando até hoje”, comentou na época.

“A única pessoa que me esperava era Eliza, na época minha namorada e com quem estou casado até hoje”, disse.

Bauer morreu em 4 de fevereiro de 2007, com dificuldades financeiras. Como Barbosa; Augusto e Juvenal; Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair Rosa Pinto e Chico, Bauer fez o papel de um guerreiro que, abatido no campo de batalha, se sacrificou para trazer paz e novos caminhos para o país.

Nelson Rodrigues já dizia que a seleção era a pátria de chuteiras. E aquela derrota do Brasil se somou a um novo Brasil, da Bossa Nova, da Petrobrás, dos Anos Dourados, da chegada da TV, do desabrochar de uma nova poesia e prosa, de Fernando Sabino e seus parceiros, do glamour de Copacabana e Ipanema.

E do futebol. Pelé, afinal, surgiu nesse terreno fértil e, graças à derrota de 50, quando viu seu pai chorar, prometeu que um dia iria trazer o título para o Brasil.

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A conquista veio oito anos depois, na Copa do Mundo de 1958. Muitos pensavam que, após perder em casa, diante de 200 mil torcedores a favor, nunca mais haveria outra oportunidade. Naquela nova era, porém, tudo passou a ser possível.

Até compensar a perda, vencendo tudo e todos, o futebol científico da URSS, do outro lado do mundo, na Suécia. O Brasil conheceu Garrincha e Pelé. E o caminho do penta. Naqueles anos e a partir daquela fatídica derrota, o Brasil passou a conhecer, de verdade, o seu lado otimista.

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