Dia a dia na pandemia faz percepção da passagem do tempo mudar

Nesta quarta-feira (1°), o mundo chega a marca de seis meses desde o primeiro caso de  covid-19, registrado na China. Esse período de tempo em meio à pandemia do novo coronavírus tem sido percebido de forma diferente pelas pessoas. Para alguns, tudo está passa muito rápido e, para outros, muito devagar.

O psicanalista Ronaldo Coelho, que é idealizador e professor do curso Análise do Discurso na Clinica Psicanalítica e professor da Unifesp, explica que o tempo é relativo e a nossa percepção depende da intensidade do que vivemos no momento. 

Os gregos separavam o tempo em dois. O Chronos é o tempo do relógio e não se altera. Sem pandemia ou com, o dia vai ter a duração de 24 horas. O Kairós é a percepção de tempo e pode mudar conforme a atividade realizadas por cada pessoa.

A professora Mary Okamoto, psicóloga e docente do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, explica como “experiência do tempo é subjetiva”, e depende de outros fatores, como a rotina. 

“Essa velocidade e experiência do tempo depende de como as pessoas está vivendo essa situação de isolamento. Se ela tem muitas tarefas, continua trabalhando, ou teve um mudança completa de rotina, a sensação é de que pode estar passando muito rápido,” explica. 

Experiências traumáticas, como a pandemia, problemas econômicos ou a perda de um parente, também fazem com a percepção de tempo se altere. Mary explica que nesses casos a pessoas pode ter a sensação de que o tempo está parada.

“É desse conceito que vem a máxima: ‘É impressionante como o tempo voa quando a gente se diverte’”, cita Ronaldo sobre o fenômeno de subjetividade. O tempo depende de onde estamos ou o que vivemos. 

Rodolfo Langui, coordenador do instituto de astrofisica da Unesp, explica que o físico alemão Albert Einstein provou com a “Teoria da Relatividade” que a passagem do tempo depende de um referêncial. 

“O tempo passará mais lentamente para alguém que se movimentar a velocidades cada vez mais altas, em relação a outra pessoa que está em repouso”, diz Lagui sobre  teoria de Einstein. “A pessoa que estiver viajando a velocidades próximas a da luz, o tempo pode fluir  bem devagar, quase parando”, conclui. 

O professor da Unesp explica que é praticamente impossível um ser humano atingir velocidades tão alta e que a sensação biológica do tempo não é refinada a ponto de percebermos essas mudanças. Apesar de não podermos atribuir a mudança de percepção de tempo na quarentena a Einstein, é essa teoria que ajuda a entender que o “tempo não é absoluto, mas relativo”, diz Langui. 

“Somos eu, meu marido e minha filha. Eu trabalho como atriz e apresentadora e estava cada dia em um local diferente, com diversas pessoas. Me vi em casa com ambos”, explica a atriz Lara Cardoso, que diz que o tempo parece não passar.

Lara, assim como uma parte da população, deixou a rotina agitada, as horas de trânsito e a intensidade do trabalho diário para ficar em casa e se proteger dos riscos de se contaminar com o novo coronavírus.

Os acontecimentos do dia a dia, com horários definidos e prazos para execução, moldam a percepção do tempo. Sem horários definidos e atividades diferentes nos momentos de lazer, as pessoas perdem os marcadores que definem o fim e o começo.

 “O sono se altera, o trabalho fica improdutivo e a pessoa não consegue relaxar um minuto, mesmo não tendo feito nada o dia inteiro”, explica Ronaldo, sobre as consequências da falta de uma rotina.

“Eu percebo que não tenho mais horário e estou vivendo no automático. Entro às 9h no trabalho, mas acordo 8h30 só para ter tempo de tomar café, lavar o rosto e escovar os dentes. Então sento para trabalhar”, explica Allan Gavioli, estudante, que ao contrário de Lara, diz que tudo passa muito rápido e parece que está vivendo a mesma coisa há mais de três meses.

Essa desorganização e a falta de marcadores do cotidiano pode gerar problemas psicológicos. São as doenças da mente, que tiveram um aumento durante a quarentena, como crises de angústia, pânico, depressão, ideações suicidas ou mesmo alucinações e delírios.

A professora Mary destaca que isso ocorre pois na quarentena algumas experiências e ficaram mais intensas, como a previsão de melhora que não chega, e a quebra total dos planos para 2020. Isso gera a ansiedade de algo que não é resolvido e não tem perspectiva de chegar ao fim tão cedo. 

Ela destaca que o ponto mais importante nesse momento é ter uma compreensão realista do que está acontecendo, sem negacionismo. 

“É preciso calma e paciência e avaliar sempre o que está acontecendo. É necessário cuidar da nossa saúde mental, perceber se está mais agitado, ansioso e procurar ajuda”, explica.  O próximo passo é tentar resgatar marcadores do cotidiano.

Por esse motivo, Ronaldo cita que “é necessário fazer a pergunta: o que posso fazer que se aproxima da minha vida antes da quarentena?”

Para tentar voltar ao normal, por exemplo, a atriz Lara optou por trazer o teatro para casa e envolver sua família. Além disso, passou a adaptar os conteúdos que produzia fora de casa para a internet. “Não uso mais pijama. Faço uma maquiagem leve para produzir conteúdo pro canal e até para molhar as plantas no quintal.”

“O tempo do nosso corpo é Kairós, não Chronos”, afirma Ronaldo. Em outras palavras, as atividades regulam o nosso tempo. “Se fico no mesmo ambiente o dia todo o corpo continua agindo da mesma forma”.

*Estagiário R7 sob supervisão de Pablo Marques

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