Como é rotina de aulas a distância desde o início da quarentena em SP

Ao segurar no corrimão, o pequeno Pedro, de 4 anos, pergunta: “Mamãe, aqui tem coronavírus?”. Durante os 100 dias em casa, após o governo de São Paulo decretar quarente por conta da pandemia do novo coronavírus, o menino está com medo da doença, com um misto de saudade da velha rotina na escola e as brincadeiras no quintal da casa dos avós.

A mãe, a assistente administrativa Alcione Sousa Andrade Barbosa, está trabalhando em casa, em home office. “Depois de tanto tempo, vendo o Pedro ficar triste e só nas telas, sem espaço para brincar no apartamento, decidi levá-lo para passar a tarde com os avós”, conta.

O menino e os avós ficam de máscara o tempo todo. “Lá ele tem espaço para brincar, andar de bicicleta, ele chegou a chorar antes de dormir com saudade da rotina, da escola e dos amigos.” As aulas online não funcionaram, mas a professora criou um grupo no whatsapp para que as crianças possam interagir.

Para Fabiana Fernandes, que é técnica em enfermagem e trabalha no setor da saúde mental, a maior dificuldade foi organizar a rotina nos primeiros dias. Os filhos Esther, de 13 anos, e Pedro, de 9 anos, estudam na rede pública. No início, Fabiana tinha apenas o celular e os filhos precisavam se dividir para acompanhar as aulas online.

“Eu não parei de trabalhar e fiquei doente, contraí a covid-19 e todos em casa adoeceram”, conta. Além das dificuldades do filhos em acessar às aulas, Fabiana também não tinha como dar a atenção necessária à família. “As lições se acumularam e isso me deixou muito preocupada porque eu queria que estivesse tudo em dia, mas depois entendi que o mais importante é que eles aprendam de verdade e me acalmei.”

Além das aulas, Pedro e Esther assistem à vídeos e fazem atividades propostas pela tia, que é professora, para complementar as aulas. Os dois também acessam o conteúdo de um computador, o que facilitou a vida de todos.

Em meio ao dia a dia na pandemia, a família também precisa lidar com o luto. “Meu cunhado também ficou doente e faleceu e é essa sensação de impotência que me marca, de não ter o que fazer, o que dizer”, desabafa. “Não tive nenhuma acolhida, nenhum apoio, voltei ao trabalho, mas não tive um amparo emocional.”

A insegurança e as emoções também estão à flor da pele na casa de Geanmarco, de 17 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio na rede estadual, que sonha com uma vaga em engenharia na USP (Universidade de São Paulo), mas não sabe como será o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

“Ele é muito estudioso, organizou a rotina por conta e tem se dedicado sozinho, participa de uma tutoria que os professores da escola criaram, mas costuma dizer que com as aulas online ele sente que não aprendeu nada”, explica a mãe, a professora Luciana Fernandes Maia. Ela mesma teve de se reiventar para atender as demandas dos alunos no ensino remoto.

Para Luciana, o MEC (Ministério da Educação) deveria coordenar melhor as ações de Educação na pandemia. “Não temos um posicionamento claro do MEC e todos estão perdidos nesse momento.”

A organização da rotina foi o ponto fundamental para harmonia na família do jornalista Wilson Barros e da psicóloga Maria Fernanda Miglioli, pais de Lorena, 5 anos, aluna do ensino infantil da Escola Santi. “Assim como tínhamos a rotina de trabalho, a Lorena seguiu com a rotina da escola e ela se adaptou muito bem”, avalia Wilson.

“A Lorena se interessou muito pelas teclas, por se comunicar pelas telas e isso despertou o interesse pela leitura e escrita”, observa Maria Fernanda.

Para eles, o período de pandemia também tem sido uma oportunidade de acompanhar de perto o desenvolvimento da filha. “Valorizamos muito o trabalho dos professores, que estão se desdobrando para dar as aulas e manter todas as atividades.”

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